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UMA MULHER, UMA CONDENAÇÃO: OU É LOUCA OU É VADIA.

Atualizado: 6 de abr. de 2022



Ele leva o leitor a acreditar que houve traição e ponto. Em um enredo narrado em primeira pessoa, cheio de parcialidade que demonstra um ponto de vista já consolidado, o idoso advogado Bento Santiago descortina em sua história o machismo nosso de cada dia, onde Capitu o traiu.

O ciúme de Dom Casmurro é mostrado ao longo do livro, ele chega a expor seu ciúme do mar, quando Capitu admirando o horizonte o faz conjecturar o porquê desta admiração contemplativa. O que ele ignora é que Capitu não era coisa ou objeto, era uma mulher com seus desejos e sonhos, e isso de mulher sonhar é insuportável para o Patriarcado.

No dia 9 de fevereiro uma mulher teve sua vida exposta, um caso que aconteceu no município de Planaltina, no Distrito Federal, ela foi flagrada pelo marido tendo relação sexual com uma pessoa em abandono.

Após 14 dias do ocorrido, o sujeito em abandono concede uma entrevista ao Portal Metrópole. Givaldo Alves, de 48 anos, traz sua versão do fato, revelando intimidades sobre a mulher com quem manteve relação sexual.

A verdade é que há dois sujeitos invisibilizados aqui pela sociedade, ambos destituídos de seus corpos e desejos, ambos se encontraram no estigma de se sentirem sós, ambos causam espanto por revelarem nosso preconceito, mas apenas um consegue destaque social, e isso por causa de uma única condição - ele é homem.

A psicanalista Françoise Dolto afirma em seu livro “O Evangelho à luz da Psicanalise” que Jesus sabia o que era estar só, então somente por isso era o único ali, na cena da mulher adúltera, que sabia exatamente o que ela estava passando: “O sentimento de culpa a oprime”. Então Jesus suscita em vez de censurar: Quem não tem pecado atire a primeira pedra...

Givaldo Alves é elencado ao mito, pois se torna o homem que “comeu a gostosinha”, a rede social lhe dá espaço, o convidam para ser parlamentar, se torna o tema de um samba, vira meme e assim, revela o desejo masculino oculto, porque cobiçar a mulher do outro, é, sem o saber, reviver o nosso Édipo.

Para a mulher fica o estigma de que se havia um desejo, e este não foi para o seu marido, ou é louca (já lhe deram um CID) ou é adultera. Uma mulher e uma condenação.

Quando uma mulher trai, quando a mulher é mãe solteira, quando uma mulher é abusada, violada, sempre vão surgir acusadores ecoando a fala de uma mulher culposa, mas onde está a participação do homem? Todo prazer insuficiente se torna amargo, então mendigamos (Lacan implica em metáforas) o amor em outro lugar, em qualquer lugar.

Muitos elogiaram a entrevista de Givaldo Alves que pede um minuto de silencio aos mortos pela covid-19 no Brasil e aos mortos na guerra da Ucrânia, mas os mesmos esqueceram-se do silencio imposto à mulher vitima de toda essa violência.

Françoise Dolto implica que não é porque o desejo se engana ou se hesita que não se deva tentar vive-lo, para isso precisamos trabalhar o desejo para melhor conhecer, em vez de fingir de morto para viver.

E virão outras entrevistas, e surgirão outras mulheres silenciadas, tidas como loucas por causa de seu desejo inusitado, desviados do pacto social da monogamia e por isso, impuros. afinal, só os homens da lei existem e falam, às mulheres, cabe apenas o silencio e a acusação.

E um Cristo que continua escrevendo sobre a areia.

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