Uma Jornada Inesperada

“Para que haja psicanálise e ela não seja auto, é preciso um psicanalista[1]”, assim pensava Lacan. É neste propósito que surge o Centro de Estudos Psicanalíticos Jairo Carioca, ao entender que não há possibilidade de que haja um analisante, se faltar no percurso deste, o analista.

Mas não pense que seja fácil estar neste lugar de ANALISTA, pois é preciso trilhar o caminho deixado por Freud seguindo o ensino de Lacan, e assim, com um comprometimento com a Ética da Psicanálise, chegar ao momento da afirmação lacaniana segundo a qual “o analista só se autoriza por si mesmo”, sem esquecer também o que ele mesmo proferiu no Seminário livro 21 “Les non dupes errent[2]”, ou seja, e também por outros.

Sendo assim, assumir este ato é muito mais difícil do que frequentar um curso de formação, cumprir todos os requisitos necessários e sair formado, pois há aqui uma jornada onde a formação só tem um começo e é neste começo que se situa o Centro de Estudos Psicanalíticos Jairo Carioca que se encontra no aforismo do grande mestre francês Lacan ao afirmar de modo chistoso na Universidade de Yale: “Penso com meus pés[3]”, ou seja, ser psicanalista é trilhar uma jornada inesperada.

 

[1] Lacan, J. (1973[1964]). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

[2] No ano de 1973, Jacques Lacan, professa o Curso do Seminário 21. Fazendo uso da ironia que lhe era própria, propõe como título do mesmo “Les non-Dupes Errent” ou “Les Noms Du Père”. Apropria-se da riqueza da língua, no encontro homofônico, onde isso se faz consonante. Um chiste, que se remete unicamente a Aula de 26 de novembro de 1963, “Introdução aos Nomes do Pai”, do que, a seguir, viria a ser, o Seminário Inexistente.

[3] Jorge, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan. Vol.1: As bases conceituais – 2 ed. Rio de Janeiro – Zahar, 2005.

SOBRE A PSICANÁLISE

Desde a sua invenção, a psicanálise conta com caráter extraoficial, não demandando qualquer regulação, sob a alegação de que tais procedimentos de controle se contrapõem ao seu campo de atuação: o inconsciente. “Psicanalista” é uma profissão não regulamentada juridicamente; o Estado não possui meios para intervir em sua atividade clínica e em seus critérios de formação profissional, e tampouco existe um conselho federativo que reúna os profissionais da área e estabeleca critérios e regimentos[1]. O próprio Freud afirmou que, de um ponto de vista teórico, a psicanálise é um sistema de pensamento, e de um ponto de vista clínico, uma técnica única e específica de tratamento psíquico[2].

Visando manter elevado o padrão intelectual de seus cursos, há um consenso entre as diversas Sociedades Psicanalíticas do Brasil, em consonância com os estatutos internacionais, que os postulantes a analista sejam profissionais graduados em qualquer área do conhecimento humano, baseados no texto do próprio Freud: “A questão da análise leiga”. Com isso, seu exercício não é proibido, mas também não é regulamentado.

A psicanálise se faz presente nos cursos de graduação em psicologia e medicina como disciplina constituinte do campo psicológico e psiquiátrico. Diante disso, as instituições psicanalíticas não consideram essa forma de ensino como formação em psicanálise. Apenas na França, na Universidade de Vincennes-Paris VIII, existe, desde 1968, um departamento de psicanálise voltado exclusivamente para o ensino da teoria e da prática psicanalíticas como uma graduação independente dos campos médico e psicológico.

 

[1] A Psicanálise não é uma profissão regulamentada no Brasil, o psicanalista é considerado um profissional liberal, e seu ofício constam na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) do Ministério do Trabalho (Portaria Nº 397/TEM, de 9/10/2002, sob o nº 2515.50).

[2] Freud, Sigmund. Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades? (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., Vol. 14). São Paulo: Companhia das Letras. (Originalmente publicado em 1919).

SOBRE A FORMAÇÃO PSICANALÍTICA

A formação Psicanalítica é fundamentada no tripé analítico proposto por Hanns Sachs e aprovado em uma das reuniões de quartas-feiras pelo primeiro grupo de discípulos reunidos por Freud: análise pessoal, ensino teórico e supervisão[1].

Estar em análise é condição fundamental para se tornar um analista. Tanto Freud quanto Lacan[2] reconheceu a importância de uma transmissão de saber que superasse a teoria dos livros, o primeiro dizendo que quem deseja ser um analista deve começar por analisar seus próprios sonhos, e o segundo afirmando que o produto de uma análise é um novo analista.

 A prática está vinculada à transmissão o tempo todo. Para Freud, o psicanalista que negligencia o saber adquirido na própria análise, em prol do conhecimento adquirido nos livros e conferências será, não apenas punido por ser incapaz de aprender um pouco mais em relação a seus pacientes, mas também se tornará um perigo para os outros e para o crédito da psicanálise. O desejo do analista deve ser aquele que não busca a cura e a felicidade como o fim próprio de uma análise, uma vez que tanto a cura quanto a felicidade tem, para cada sujeito, um sentido particular que foge à regra normativa da civilização.

 

[1] Criada por Freud, a supervisão é uma prática de ensino e aprendizado da psicanálise que consiste na apresentação do material que um analista menos experiente (o supervisionando) recolhe em sua prática clínica a um analista mais experiente (o supervisor). É como se um psicanalista prestasse contas de sua prática a um outro, que o guia na compreensão e direção do tratamento, e o ajuda a refletir sobre seu posicionamento, ou sua “afetação”, naquela.

[2] Ao longo da década de 1960, Lacan somou grande número de adeptos à formação em psicanálise, os quais foram atraídos pelas suas propostas “subversivas”, como as críticas que dirigia a psicanalistas filiados à IPA, que estariam centrados na chamada “psicologia do Ego”, fundamentada, segundo ele, na função adaptativa do eu à realidade que o cerca, no fortalecimento do Ego, da consciência, como uma proposta de reeducação emocional do paciente. Em sua opinião, tal orientação apresentava uma contradição lógica à psicanálise, adversa à proposta de Freud de descentramento do sujeito e da impotência do eu frente às pulsões do inconsciente. Além disso, Lacan apoiava movimentos de contestação da psiquiatria clássica e das condições a que estavam submetidos tanto pacientes quanto trabalhadores nos hospitais psiquiátricos. Com a proposta de uma clínica da psicose, ele fomentou a dicotomia entre a má psiquiatria, que reprime o sujeito ao generalizar um ideal de saúde mental, e a boa psicanálise, que promove a subversão do sujeito através da apreensão da verdade de si, que escapa às determinações sociais. Lacan defendia o entendimento da loucura como condição portadora de verdade e sentido, e a fazer frente à psiquiatria médica, que a degrada em doença mental e busca eliminá-la ou com remédios, ou com tratamentos violentos, ou com o isolamento do paciente em instituições psiquiátricas. A psiquiatria tornou-se a expressão máxima do poder/saber repressivo, hegemônico e autoritário, e alvo de ataque dos lacanianos aliados a movimentos sociais de esquerda. Lacan foi expulso da IPA em 1963, por transgressões de ordem teórica e, principalmente, de ordem técnica, referente à condução da terapêutica e à formação de analistas, e criou, em 1964, sua própria instituição de psicanálise, em Paris, a École Freudienne de Paris (EFP). Com ela, buscou se opor ao modelo burocrático e hierarquizante que dizia ter dominado as sociedades psicanalíticas ipeístas, e que, em sua concepção, desvirtuavam os reais sentidos da formação do analista proposta por Freud. Postulou não ser necessário o reconhecimento de psicanalistas de instâncias institucionais superiores para se receber o título de psicanalista e ser reconhecido como tal, e, em sua Escola, instaurou o princípio de que “o psicanalista só se autoriza de si mesmo”.

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